Diário de Bordo: México – Parte 2

O segundo vôo, partindo da capital mexicana com destino ao Brasil Baronil, parecia tranquilo. Após a aterrisagem realizada com a sutileza de um hooligan irlandês, a estadia no aeroporto internacional da cidade do mexico e o embarque ocorreram tão bem que achei que não ia nem ter material pra fazer o segundo Diário de Bordo. Claro, eu estava enganado.

Fiquei feliz ao ver que meu corpo cabia praticamente inteiro no assento do avião. Quando me acomodava na cadeira, pediram-me para trocar de lugar com um garoto, para que ele pudesse sentar ao lado dos pais. Cedi e acabei por sentar duas fileiras à frente do meu grupinho, ao lado de uma família nipo-brasileira que parecia bem simpática.

Não sei se citei na Parte 1 mas vale lembrar: A menininha dos últimos três vôos estava atrás de mim. De novo.
Tirando o fato do capitão avisar que teríamos duas horas de turbulência logo após a decolagem e três mais após um tempinho de estabilidade, tudo estava conforme os ajustes.
Mesmo tendo cinco horas de um sentimento comparável à dirigir na estrada de Joanópolis, eu estava mais sossegado. O vôo prometia menos sofrimento dessa vez. Ou não.

Um pouco depois de sair do solo, começaram a servir a bóia. Com todas as bandejas abaixadas, torna-se impossível sair de qualquer assento para dirigir-se ao mijadouro. A infame menininha stalker ignorara as ordens da mãe e bebera toda a garrafa de água que a Aeroméxico te deixava de “brinde” na poltrona, e isso só reforça minha idéia de que criança só faz merda. Essas são as informações necessárias para compreender o texto à seguir.

Na hora do grude, a pimpolha pede para ir ao banheiro, o que seria claramente impossível, já que ela estava no segundo assento da fileira. A mãe sentiu uma fúria viking e começou a dar um sermão na assustada garotinha; ignorei e voltei ao minha deliciosa janta:


Inveje-a.

Nisso, meus ouvidos captaram uma fala na fileira de trás que pescou a minha atenção. Era a mãe dizendo calmamente à garotinha: Pronto, filha, já fez. Agora bebe menos pra não ter que fazer de novo.
Não, ela não saiu da cadeira. Sim, isso me intriga e eu prefiro não mais refletir sobre isso.

Nessa hora eu comecei a pensar que o vôo poderia ser muito pior. Nas costas do assento à frente havia uma pequena televisão com todo um sistema de entretenimento embutido. Era bastante divertido; assisti Distrito 9 pela terceira vez, joguei Tetris com o oriental ao meu lado e, diga-se de passagem, dei um pau nele e de quebra ainda assisti uns quatro episódios de The Big Bang Theory que o canal do avião disponibilizava. Estava ótimo até a turbulência me fazer sentir à 200km/h num monster truck.

A turbulência passou, mas, repentinamente, – sim, do nada – o lugar foi esquentando e esquentando até se transformar numa sauna aérea. Arranquei meu fodíssimo casaco do Hard Rock Café com toda a fúria assim que notei a ilha de calor em pequena escala que se formava sobre mim. A minha seção parecia um cemitério de tão silênciosa (achei que todos estivessem carbonizados devido ao calor sobrehumano) mas um grande corno dormiu com o iPod no máximo. Solos de bateria e jazz conceituais insuportáveis permearam o ambiente. Logo outra criancinha, provavelmente parente do saco furado de urina, começou o choro, pra alegria comunitária de todos ao redor. Maldito seja você que leva uma criança pequena para uma viagem de oito horas.
Meu inferno começou aí: Uma curta enxaqueca, uma ânsia de vômito e uma sequência de dois espirros foram suficientes para achar plausível virar um cruzado George Foreman no rosto do simpático japinha, que perguntava repetidamente se eu me sentia bem. Nessas horas, a errônea correção automática do iPhone irrita muito mais. Vi no reflexo do celular que estava branco, provavelmente uma herança do passado problemático da minha família, vítima frequente da horrível sensação da pressão baixa, da diabetes e da forte tendência à obesidade. Tirei um cochilo. Ou caí duro de mal-estar, não me lembro.

Em meio à dor de cabeça e ao calor senegalesco (que até agora não consigo entender, porque a temperatura externa era -40 Celsius; como aquele trambolho estava tão quente!?) dei uma arrumada na juba e – ops – cadê minha boina? Sim, no meu cochilo de cinco minutos meu estimado quepe havia caído de minha cabeça. Com o cabelo quase chapinhado, devido ao uso constante do chapéu, comecei a olhar no corredor, para ver se não encontrava a boina esmerdalhada de tanto pisotearem-na. Arranquei o cinto de segurança e comecei a procurar embaixo do assento. Suspirei de alívio quando meus dedos tatearam uma superfície diferente do áspero carpete ranhurado do avião. Infelizmente, saquei do chão um sapato feminino, e logo percebi a fenomenal cara de cu que a mulher detrás de mim se apropriou. Parecia que havia ensaiado aquela feição a semana inteira. Tente imaginar a cena.
Quase desistindo, observei no chão à frente uma coloração diferente do tapete azul; puxando-o, minha boina surgiu, tal qual um feixe de luz dourada em meio a escuridão. Me senti como Smeagal na posse do anel.

Algo curioso e que contribuiu fortemente para a minha irritação foi a tragicomédia que ocorreu: Meu assento era influenciado pelas traquinagens de um Polteirgeist. Se minhas costas parassem de forçar a cadeira, ou se simplesmente eu desviasse minha atenção para qualquer outra trivialidade do avião, a poltrona saía de seu reclínio, obrigando-me a colocar a coluna ereta de maneira bastante desagradável. Calcule o quão odioso isso foi.
A ação do pentelho fantasma não para por aí: Minha televisão, que há pouco havia me entretido tanto, causava-me agora uma agonia extrema. O desligamento automático havia sido retirado tal qual um cancer de pâncreas pelo Poltergeist, fazendo com que minha fonte de diversão se tornasse também a única fonte luminosa do escuro avião, e ela estava justamente na minha cara! A soma dos irrelevantes e agonizantes me fizeram ir ao banheiro lavar a cara, respirar fundo, contar até dez e até morder a mão.
Mais calmo, voltei a minha amaldiçoada poltrona e a telinha estava apagada (obrigado senhor Poltergeist por ter piedade de minha alma). Quase beijei-a de tanta emoção. Tenho a sensação de que o cara que trocou de lugar comigo percebeu que o assento dele era todo cagado.

Faltando duas horas para chegarmos no aeroporto internacional de Guarulhos, eu dormi. E a poltrona voltou ao seu ângulo reto. Passei os últimos momentos do vôo pensando: Na próxima eu vou de executiva, na próxima eu vou de executiva. Pensamento positivo é o que importa – na verdade, é o que sobra, já que minha dignidade e esperança já foram pro saco.

O lado positivo é que descobri que o iPhone serve de ótimo instrumento jornalístico para os meus posts. Sem razão séria, uma fotinho do avião:

[Wordpress maldito] Olha, por mistérios que só os grandes sábios do oriente antigo sabem responder, a parada de inserir imagens está cagada. Se você está lendo isso na exata hora que foi ao ar, Houston, temos um problema que será cconsertado. Se você está num futuro próximo (ou não) ignore e veja a foto.

[Update] Hahaha, WordPress, eu como suas falhas no café da manhã. Resolvi o problema 10 minutos depois da postagem, mas achei bacana manter a mensagem do erro aqui.

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2 Respostas

  1. Smeagle e o anel, menininha stalker…
    Suas origens te condenam, Dario… MWAAHAHAHA >=D
    (por falar nisso, ótimo post, parabéns, cara)

  2. Minha imagem de exibição do MSN é um Clone Trooper.
    So respondi pra testar o Gravatar.

    :D

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