Diário de Bordo: México – Parte 1

As longas viagens aéreas na classe econômica são fontes clássicas de piadas e de historinhas para rodas de buteco.Eu já viajei muito e infelizmente, enfrentei muitos vôos, mas essa volta ao Brasil foi aterrorizante.
Encontrava-me cercado em todos os pontos cardeais conhecidos pelo homem. Seres que só seriam socialmente aceitos se lidos numa obra de Edgar Allan Poe.
O avião era uma legítima fauna: Desde bebês chorões à cariocas sem noção. E é só o básico. Quer entender o sofrimento mais expressivo numa viagem de três horas? O link pra terminar de ler é ali embaixo.

Dividi a trama pois, além de ter ficado extremamente longo para um post só, minha epopéia teve duas partes: A saída de Cancún para Cidade do México e dali para minha querida capital paulista. Conexão aérea é algo realmente irritante. Ambos os vôos foram dignos de parábolas bíblicas. Os fatos que me ocorreram beiraram o surreal.

Duvida? Clicaí.

Se essa postagem tiver uma repercussão bacana, criarei uma nova categoria chamada Diários de Bordo.

Na ida à  Cidade do México, para a conexão destinada à Cancún, uma menininha veio na fileira à minha frente. Por que levar uma pirralha de quatro anos pro México? Enfim, tolerei, afinal, era só naquela parcela, de oito horas, da viagem. O curioso foi que no vôo da conexão, a mesma menininha sentou a minha frente de novo! De saco cheio, já que ela se apegou ao meu grupinho de viagem e, à grosso modo, não calava a boca. Pensei: É só pela ida mesmo. E tentei dormir. Isso é irrelevante. Só expliquei pro pessoal não se perder. A minha Ilíada começa na volta ao Brasil.

Mesmo esquema: Saíndo de Cancún para a capital mexicana. Advinhem se o mesmo protótipo de ser humano feminino estava na minha frente. Só advinhem. Era um vôo noturno, e eu estava num modo berseker por sono, mas o conjunto de sons desagradáveis impediu-me de alcançar o nirvana momentâneo.

Ah, vale a pena frizar: Com todos  já sentados para a decolagem, a aeromoça avisa que precisa de quatro passageiros que queiram desistir do vôo para mais uma noite de estadia num puta hotel com janta paga. Os que cedessem o lugar iriam no dia seguinte, pela manhã, de classe executiva e ganhariam um passe viagem free por um ano. Quando vi que eu e o pessoal que me acompanhava somávamos quatro pessoas, virei instintivamente pra eles e falei: Bora?
Antes que eles pudessem processar a informação, quatro cariocas se levantaram e correram, tal qual uma manada de centauros ensandecidos, em direção à aeromoça. Parecia que uma tropa de choque havia entrado no avião. Vendo pelo lado bom, o vôo teve menos “sutaque carioca”, morô? Depois de uma hora nessa de sair gente e entrar gente, decolamos.

Saquei o iPhone e comecei a anotar os fatos mágicos daquele zoológico: Um pouco a frente havia uma gótica gordona, uma criatura digna de um episódio de Miami Ink, que insistia em se enturmar com os cariocas ao seu lado. Esses da espécie denominada “carioca” falavam alto e dotados daquele agradável sotaque – ou “sutaque”, na língua deles – a situação se tornava equiparável ao Inferno de Hades. A gorda falava ainda mais alto que a galerinha da terra do Cristo Redentor, fazendo-me visualizar frequentemente a cena onde me erguia, armado de uma Bullpup e metralhava-a até meu dedo criar calos de tanto segurar o gatilho.

No meio da fileira, sentava uma baiana idêntica a Cat Powers. Ela trajava aquela maravilhosa calça de axé toda colorida, que deixava mais aparente o belo material que cobria. Ao seu lado, estava o namorado/marido/amante da mulé. A companheira gostosa localizada à minha esquerda deitou-se no meu ombro enquanto dormia, por conta de uma turbulência. Imaginem o sono fake que eu mandei assim que percebi que o marido da moça estava acordado.

Tempos depois, ainda rascunhando esse post no aplicativo de Notas, tenho aquele sexto sentido que indica que há um par de olhotas te espiando. Olhei sorrateiramente pra trás e me deparei com uma velha que observava de maneira fria e calculista o movimento dos meus dedos sobre as teclas da interface touch. Ergui a sobrancelha e a senhorinha olhou para trás, calma e tranquilamente, como se nada ocorrera. Cinco minutos depois eu me viro novamente e lá está a véia, meio que esticando o pescoço pra tentar ler aquele conteúdo inútil, que futuramente se transformou nesse post. Escrevi no rascunho, numa ala de Fatos Importantes, essas exatas palavras: Velha fuxiqueira que ficava lendo esse rascunho. Espero que seus olhos míopes tenham lido isso e, agora, vá cuidar da sua vida.

Chegando à metade do trajeto, a bóia foi anunciada. Um alívio, pelo menos até a aeromoça passar por mim e deixar isso na minha mesa:

O lanche

O lanche.

Isso foi sacanagem. Puta brincadeira de mal gosto da Aeromexico.

Após degustar dois amendoins, pretendi uma diarréia mortal e fui ao banheiro, que apesar de ser semi-portátil, era maior que meu assento. Levei o PSP num estilo stealth/metal gear solid e passei uns vinte minutos sentado na privada jogando-o. Esse momento de pequena alegria foi logo interrompido quando ouço, do lado de fora do cagadouro, um sotaque carioca reclamando com a aeromoça mexicana pelo tempo de ocupação do banheirinho. Claro que ele não ia se dar o trabalho de falar espanhol: Tente imaginar um pouquinho desse diálogo gesticulado grotesco.
Eu estava prestes a sair, mas, pela minha má vontade natural & pelo LULZ, eu me mantive mais meia-hora no banheiro. Saí de lá com aquele sorriso que vai de orelha-a-orelha, direcionando o olhar para o doce carioca, que, num estado compreensível de putidez tremenda, e começa a escandalizar, dizendo que eu não me importava com o próximo. Enquanto ele falava eu desviei o olhar e, sabe o que eu percebi? Havia uma porta de banheiro no outro lado do avião, que provavelmente estava vazia. Interrompi o sermão papal dele e apontei para o banheiro; dei-lhe um tapinha no ombro e voltei para o  meu pequenino assento.

Depois de tudo, eu recebi o meu prêmio. A famigerada baiana se levantou para ir ao banheiro. Num momento de misericórdia do cosmos, alguma força maior a fez tropeçar em meu joelho, permitindo um encaixe elíptico entre minha coxa e as traseiras da mulher. Isso me fez lembrar que eu escrevi toda essa parada no iPhone e, quiçá, ela tenha lido essa parte. Infelizmente, o marido dela foi junto, então, não posso dizer que a encoxação foi 100% Win, mas, na minha situação, tudo que vinha naquele avião era lucro. Exceto o amendoim japonês.

Já próximo do D.F mexicano, tentei dormir um pouco. Por um momento, desliguei todos os aparatos eletrônicos, me contorci para virar de lado naquela banqueta de bolso e apertei a boina contra a cabeça, cobrindo parte da minha visão. Repentinamente, todos ficaram quietos. Meu primeiro pensamento foi: O avião caiu e estamos mortos. Ao perceber que aquele trambolho ainda estava voando desajeitadamente, me senti tão alegre que poderia até abraçar a gordona gótica. Para apunhala-la. Recoloquei o iPod ao som baixinho de GoodBye Blue Sky do Pink Floyd. Bastante conveniente.
O cara da fileira de trás se desfez de sua posição de extrema filha da putice (havia colocado os dois joelhos na minha poltrona, para que eu não a reclinasse) e aproveitei o ataque de oportunidade para inclinar a banqueta. O meu tesão logo foi cortado quando alguém gritou, o bebê começou a chorar e o cara de trás pediu pra eu voltar a cadeira à agonizante posição de 90 graus, porque ele se sentia desconfortável.

Foi um vôo chato e um texto gigante de se escrever no iPhone, eu mereço meu descanso.
Aguardem a parte 2.

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Uma resposta

  1. Campeããão! Muito bom post! Parabéns, cara! Não fosse o berserker e a metáfora dos centauros, quase nem dá pa perceber que você é nerd! =D

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